No coração do semiárido baiano, no município de Itatim, erguem-se no horizonte centenas de inselbergs — montanhas isoladas de rocha que parecem verdadeiras ilhas de pedra em meio à paisagem plana da caatinga. O nome do município já indica essa característica: Itatim vem do tupi itá (pedra) + tim (aguda), referindo-se ao impressionante Morro da Ponta Aguda, um dos inselbergs mais conhecidos da região.
O município é famoso entre escaladores e geólogos. Mas o que poucos sabem é que essas estruturas são sobreviventes de processos geológicos que duraram centenas de milhões de anos.
Para entender os inselbergs de Itatim, precisamos viajar no tempo. A rocha que os compõe formou-se durante o Período Neoproterozoico (há cerca de 600 milhões de anos), durante a formação do supercontinente Gondwana. No entanto, o formato de “monte ilha” que vemos hoje é resultado de um processo de erosão muito mais recente, que se intensificou nos últimos 60 a 20 milhões de anos (períodos Paleógeno e Neógeno).

Como surgiram?
O surgimento dessas formações ocorre em duas etapas principais:
- Cristalização subterrânea: No passado remoto, grandes massas de magma não conseguiram chegar à superfície e resfriaram-se lentamente sob a terra, transformando-se em rochas extremamente duras (como granitos e gnaisses).
- Erosão diferencial: Ao longo das eras, as camadas de solo e rochas mais moles ao redor foram sendo “lavadas” pela chuva e pelo vento. Como o núcleo de granito de Itatim era muito mais resistente que o material ao redor, ele permaneceu de pé enquanto o resto do terreno baixava de nível.

Características das rochas
As rochas de Itatim são predominantemente compostas por Granitoides. Elas possuem uma textura rugosa que oferece excelente aderência, o que explica por que a cidade é considerada a “Meca da escalada” no Nordeste.
Ecossistemas únicos
Os inselbergs não são apenas pedras mortas. Eles funcionam como “refúgios biológicos”:
- Microclima: Devido à retenção de calor e ao acúmulo de água em fendas, abrigam plantas que não sobrevivem na caatinga ao redor, como bromélias, cactos raros e orquídeas.
- Biodiversidade: Muitas espécies de répteis e aves utilizam os paredões para nidificação e proteção contra predadores.
O valor dos inselbergs de Itatim — tanto natural quanto cultural — tem chamado atenção de especialistas. Houve iniciativas e visitas de geólogos para discutir a possibilidade de integrar essas formações à Rede Mundial de Geoparques da UNESCO, o que poderia promover conservação, pesquisa e turismo sustentável.

