“Nossa bandeira é um grande TESOURAÇO: um corte profundo e por todos os lados”. Esta afirmação está na página 68 do Plano de Governo de Flávio Bolsonaro (PL) para ele por em prática caso seja eleito presidente no dia 25 de outubro. O documento prevê reduzir despesas públicas, mas não detalha como um ajuste fiscal de grande proporção seria realizado sem comprometer serviços públicos e políticas sociais. Economistas alertam que uma redução de gastos da ordem de R$ 200 bilhões seria difícil de executar sem atingir investimentos e despesas que afetam diretamente a população.
O debate ganha um componente histórico: durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), pai do candidato, políticas sociais sofreram redução de recursos, incluindo o Farmácia Popular. Em setembro de 2022, o orçamento previsto para o programa em 2023 foi alvo de um corte de 59%, segundo informações publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo.
O Farmácia Popular permite que milhões de brasileiros tenham acesso a medicamentos para doenças crônicas e outros problemas de saúde. Uma eventual redução de recursos destinados ao programa poderia aumentar a dificuldade de acesso aos tratamentos, especialmente entre famílias de baixa renda.
O problema apontado por especialistas é que o plano não apresenta uma relação completa das despesas que seriam reduzidas nem estima quanto cada medida economizaria. Integrantes da equipe econômica do candidato defenderam um ajuste de aproximadamente R$ 200 bilhões.
Segundo reportagem da Agência Brasil, publicada em outubro de 2026, economistas alertam que um corte dessa magnitude teria dificuldades para preservar todas as políticas sociais e os serviços públicos.
Grande parte das despesas federais é obrigatória, como aposentadorias, pensões e benefícios previdenciários. Por isso, cortes concentrados apenas na estrutura administrativa podem não ser suficientes para alcançar uma economia tão elevada.
Farmácia Popular: remédios que podem pesar no bolso
O Farmácia Popular oferece medicamentos gratuitos para diversas condições, incluindo diabetes, hipertensão, asma, osteoporose, glaucoma e doença de Parkinson. O programa também disponibiliza fraldas geriátricas e absorventes higiênicos, conforme as regras de acesso.
Entre os medicamentos fornecidos estão:
- Dapagliflozina 10 mg: utilizada no tratamento de diabetes mellitus associada a doença cardiovascular.
- Insulina humana: essencial para pessoas que precisam controlar a glicemia.
- Carbidopa com levodopa: combinação utilizada no tratamento da doença de Parkinson.
- Budesonida: medicamento empregado no tratamento de doenças respiratórias, como a asma e a rinite.
- Alendronato de sódio 70 mg: utilizado no tratamento da osteoporose.
- Medicamentos para glaucoma: como o maleato de timolol, que ajuda a controlar a pressão intraocular.
Esses tratamentos podem representar despesas recorrentes para quem precisa utilizá-los por longos períodos. Sem acesso gratuito pelo programa, o paciente pode ter de assumir os custos na rede privada, conforme a disponibilidade de alternativas e a prescrição médica.
Além do Farmácia Popular, outras políticas públicas entraram no debate sobre o ajuste fiscal defendido por integrantes da equipe econômica de Flávio Bolsonaro. Entre elas estão a Previdência Social, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e os recursos destinados à saúde e à educação. Também há preocupação com programas como Minha Casa, Minha Vida, Pé-de-Meia, merenda escolar e Gás do Povo.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em outubro de 2026, integrantes da equipe econômica de Flávio estudam um pacote de medidas para economizar até R$ 250 bilhões, equivalente a aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Entre as alternativas discutidas estão limitar os reajustes de aposentadorias e do BPC à inflação, sem incorporar os mesmos ganhos reais concedidos ao salário mínimo, e alterar as regras que vinculam os gastos mínimos com saúde e educação à arrecadação federal. A campanha, porém, nega que essas mudanças representem sua proposta oficial e Flávio declarou publicamente ser favorável a reajustes de aposentadorias acima da inflação.
Caso medidas desse tipo fossem adotadas, os efeitos poderiam aparecer gradualmente no orçamento das famílias. Aposentados e beneficiários do BPC poderiam deixar de receber os mesmos aumentos reais do salário mínimo, enquanto mudanças nas regras de financiamento da saúde e da educação poderiam reduzir o crescimento dos recursos disponíveis para essas áreas.
O que aconteceu no governo Jair Bolsonaro
O histórico orçamentário do governo anterior oferece um exemplo concreto do impacto que decisões fiscais podem ter sobre programas sociais.
Em dezembro de 2019, a Folha de S.Paulo noticiou que a proposta orçamentária para 2020 previa uma redução de R$ 100 milhões nos recursos do Farmácia Popular, que ficariam em R$ 2,5 bilhões. Na ocasião, Ronald Santos, então presidente da Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar) e ex-presidente do Conselho Nacional de Saúde, criticou a redução dos recursos.
Já em setembro de 2022, a previsão orçamentária para o programa em 2023 foi reduzida em 59%. A mudança ocorreu durante a elaboração do Orçamento para o ano seguinte e representou uma ameaça à capacidade de atendimento do programa.
O impacto não se restringia à assistência farmacêutica. Um levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), publicado pela Agência Brasil em abril de 2023, identificou redução de recursos em diversas áreas sociais durante o governo Jair Bolsonaro, entre elas políticas de proteção às mulheres.
Economistas alertam para os efeitos de cortes amplos
O economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avaliou, em entrevista à Agência Brasil, as dificuldades de executar um corte de R$ 200 bilhões sem comprometer despesas relevantes.
“Um corte de R$ 200 bilhões que preserve os benefícios sociais zera o resto. Se não zera, entra nos benefícios. Não há terceira opção”, afirmou Bastos.
A avaliação destaca o espaço limitado para reduzir despesas sem atingir investimentos, o funcionamento de órgãos públicos ou benefícios sociais. Hospitais e universidades federais, por exemplo, dependem de recursos para manter atividades, contratar serviços e realizar investimentos.
A economista Maria Lourdes Mollo, professora da Universidade de Brasília (UnB), também alertou para os efeitos mais amplos da redução dos gastos públicos.
“Não apenas em função das políticas sociais especificamente, que serão comprometidas, mas porque os gastos públicos têm um efeito multiplicador na renda e no emprego que é perdido”, afirmou à Agência Brasil.
