Dia Nacional da Mata Atlântica: Com 22 mil hectares, Serra da Jiboia luta por proteção

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Foto: Reprodução/Dinéia Pires/Gambá

Patrimônio natural dos municípios de Elísio Medrado, São Miguel das Matas, Varzedo, Castro Alves e Santa Teresinha, a Serra da Jiboia chega ao Dia Nacional da Mata Atlântica, celebrado nesta quarta-feira (27), cercada por alertas ambientais e por um antigo clamor popular: a criação de mecanismos mais rígidos de proteção para o último grande remanescente florestal do Recôncavo Sul Baiano.

A data marca a assinatura da Carta de São Vicente, em 27 de maio de 1560, primeiro documento oficial a citar a Mata Atlântica. Mais de quatro séculos depois, o bioma segue ameaçado — e a Serra da Jiboia simboliza tanto a resistência quanto a fragilidade dessa floresta.

Com mais de 22 mil hectares, a Serra abriga nascentes importantes, espécies animais e vegetais endêmicas e uma rica diversidade biológica ainda pouco conhecida pela ciência. Mesmo assim, continua sofrendo com desmatamento, caça, tráfico de animais silvestres e degradação das matas ciliares.

Natural de Elísio Medrado, o geógrafo, mestre em Ciências e Tecnologias Ambientais pela Universidade Federal do Sul da Bahia e agente do IBAMA, Samuel Dias Santos, afirma que preservar a Serra da Jiboia é uma necessidade ambiental, econômica e social. “Uma região sem floresta vai ter que gastar mais dinheiro com defensivos químicos, buscar água mais longe e usar mais adubo para fertilizar o solo. A floresta em pé produz serviços que não têm preço”, destacou, em entrevista para o i75.

Segundo Samuel, a vegetação exerce papel essencial na proteção do solo, manutenção da fauna e produção de água. Ele ressalta que os chamados serviços ecossistêmicos sustentam diretamente atividades humanas, inclusive a agricultura regional. “A floresta produz oxigênio, conserva o solo, produz água e mantém a fauna viva. Os pássaros, por exemplo, ajudam no controle natural de pragas que atacam plantações. Esses serviços ecológicos são praticamente impossíveis de mensurar”, afirmou.

“Cada vez mais o rio está morrendo”

Um dos pontos mais preocupantes, segundo o especialista, é a redução da disponibilidade hídrica na região. Samuel cita como exemplo o Rio Jacutinga, em Elísio Medrado. “Desde criança eu percebo que cada vez mais o rio está morrendo. Lugares que eram profundos hoje estão rasos. Dependendo da época do ano, dá para atravessar de uma margem para outra sem molhar os pés”, lamentou.

Ele explica que o desmatamento compromete diretamente a infiltração da água no solo e o abastecimento das nascentes. “Quando se desmata, geralmente para plantio ou criação de gado, o solo fica compactado. A água da chuva infiltra menos, os lençóis freáticos deixam de ser alimentados e isso reduz o potencial hírico da região”, pontuou.

Samuel também alerta para os impactos das mudanças climáticas e para o risco crescente de crises hídricas no interior baiano. “O cenário climático aponta para secas mais intensas nos próximos anos. Então é melhor se antecipar ao problema. O ideal seria revitalizar as nascentes com reflorestamento para aumentar a oferta de água”, disse.

Serra da Jiboia é “caixa d’água” regional

Além da biodiversidade, a Serra da Jiboia possui importância estratégica para o abastecimento hídrico do Recôncavo. O maciço funciona como divisor de águas de importantes bacias hidrográficas. Nascentes localizadas na Serra alimentam rios ligados às bacias do Rio Jaguaripe, Rio Jiquiriçá e Rio da Dona — este último responsável pelo abastecimento de cidades da região, incluindo Santo Antônio de Jesus.

“A nascente mais distante da foz do Rio da Dona nasce na Serra da Jiboia. Se houver desmatamento e assoreamento das nascentes, isso vai influenciar diretamente no volume de água da represa”, explicou Samuel.

Foto: Jacson Brasil/i75

Biodiversidade única

Pesquisas conduzidas pelo Projeto Serra da Jiboia, coordenado pelo Grupo Ambientalista da Bahia em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, identificaram espécies inéditas para a ciência e registros nunca antes catalogados na Bahia e até no bioma Mata Atlântica.

Segundo os pesquisadores, a Serra da Jiboia é uma área de transição ecológica — conhecida como ecótono — entre diferentes formações vegetais da Mata Atlântica e da Caatinga. Essa característica aumenta significativamente a biodiversidade local.

Os estudos identificam espécies raras, ameaçadas de extinção e endêmicas, além de animais e plantas fundamentais para o equilíbrio ecológico do bioma.

Na flora, aparecem espécies como a jaqueira, apontada pelos pesquisadores como uma planta exótica com potencial invasor na Mata Atlântica, além da candeia e do jequitibá, árvore que dá nome à Reserva Jequitibá, onde funciona um centro de pesquisa ambiental do Gambá.

Foto: Jacson Brasil/i75

Entre as aves citadas estão a choquinha-de-peito-pintado, a jacupemba, o sabiá-pimenta e a saiacaia, também conhecida como cavala, espécies que sofrem principalmente com a perda de habitat, fragmentação das matas e caça ilegal.

Os estudos ainda registram a presença de diversos mamíferos silvestres, como pacas, cutias, guigós, onças, jaguatiricas, quatis, lontras, caititus, sariguês, preguiças, tamanduás, tatus e morcegos, estes últimos destacados pelo importante papel na polinização e dispersão de sementes. Nos répteis, a jiboia — que dá nome à serra — aparece cercada por lendas e tradições populares da região.

As pesquisas também destacam a importância ecológica de abelhas, vespas e macroinvertebrados aquáticos, como libélulas, camarões, caranguejos, caramujos e vermes, utilizados como indicadores da qualidade ambiental dos rios e nascentes da Serra da Jiboia.

Proposta de mosaico de Unidades de Conservação

A principal esperança dos ambientalistas é a criação de um mosaico de Unidades de Conservação (UCs) para proteger toda a extensão da Serra da Jiboia.

A proposta prevê a criação de um Parque Estadual nas áreas mais preservadas e de uma Área de Proteção Ambiental (APA) no entorno, formando um complexo ecológico junto à já existente Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Guarirú.

Além da proteção ambiental, os defensores da proposta apontam potencial para fortalecimento do turismo ecológico, do cicloturismo, do voo livre e da observação de aves na região.

“Essa região já é visitada por ciclistas e praticantes de voo livre. O avistamento de aves, por exemplo, poderia ser muito mais explorado de forma sustentável”, concluiu Samuel.

A Mata Atlântica na Bahia

Apesar de ocupar apenas cerca de 19% do território da Bahia — aproximadamente 107 mil quilômetros quadrados — a Mata Atlântica segue como um dos biomas mais importantes do estado. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O bioma é o terceiro maior da Bahia em extensão territorial, atrás apenas da Caatinga, que ocupa cerca de 54% do estado, e do Cerrado, presente em aproximadamente 27% do território baiano. No Brasil, a Mata Atlântica também aparece como o terceiro maior bioma, cobrindo 13% da área nacional, atrás da Amazônia e do Cerrado.

Segundo o IBGE, a Mata Atlântica está presente em quase metade dos municípios baianos — cerca de 200 cidades — e é o bioma predominante em 174 delas, o equivalente a quatro em cada dez municípios do estado.

Foto: Jacson Brasil/i75

Mesmo não sendo o maior bioma em área na Bahia, é justamente nas cidades com predominância de Mata Atlântica que vive a maior parte da população baiana. Cerca de 58,9% dos habitantes do estado — mais de 8,7 milhões de pessoas — residem em municípios onde o bioma ocupa a maior extensão territorial.

Entre as dez cidades mais populosas da Bahia, oito têm a Mata Atlântica como bioma predominante, incluindo Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari, Lauro de Freitas, Itabuna, Ilhéus e Porto Seguro.

A ocupação histórica do litoral brasileiro desde o período colonial ajuda a explicar por que a Mata Atlântica é hoje o bioma mais ameaçado do país. De acordo com o IBGE, em 2022 cerca de 18,4% das espécies da fauna e flora da Mata Atlântica estavam extintas ou ameaçadas de extinção — o maior número absoluto e proporcional entre todos os biomas brasileiros.

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